Temática

CINEMA DE URGÊNCIA

Há certas ocasiões em que o cinema se faz urgente, pelos mais diversos motivos. Como em Roma, Cidade Aberta, de Roberto Rossellini (1945), que nasce da necessidade de sair com a câmera para as ruas e registrar Roma daquela forma, destruída pela guerra, em ruínas. Um filme que, quando pronto, tomou parte da reconstrução de uma Itália devastada, física e moralmente. Patricio Guzmán documentou obsessivamente o estado de convulsão política do Chile na ocasião do golpe de estado de 1973, que resultou no épico em três partes A Batalha do Chile. Abbas Kiarostami precisou voltar à região onde havia filmado Onde Fica a Casa do meu Amigo? (1987), abalada por um forte terremoto, para tentar reencontrar os atores de seu filme, o que resultou em um novo filme, E a Vida Continua(1992). A urgência é o impulso da “câmera na mão e uma ideia na cabeça” de Glauber Rocha, o motivo de existência de um filme como Terra em Transe (1967), que está completando 50 anos, atual como nunca.

Hoje, o mundo e o Brasil, particularmente, parecem passar por um desses momentos de convocação, de urgência. Em diferentes países, em vários níveis, há uma sensação de falência, de um sistema representativo falho e insuficiente para dar conta das transformações contemporâneas. Crise da representação, crise da política. Mas como realizar um cinema vivo, no calor dos acontecimentos, num momento em que as câmeras e as imagens estão por todos os lados? Na era da mídia elevada à milésima potência, ou da “Mídia-Estado”, como certa vez definiu Ivana Bentes, um cinema de urgência ainda é possível? Como?

É claro que a necessidade de pensar o mundo não se limita a um cinema de urgência, preso ao imediatismo da história. A reflexão sobre seu tempo pode assumir as mais diferentes formas – como, por exemplo, o cinema romanesco de Pierre León, nosso homenageado este ano. O cinema que procura escapar das armadilhas e tendências da moda, e que apenas aparentemente parece ser anacrônico, costuma pagar um preço alto por essa escolha, sendo condenado a uma cruel invisibilidade nos circuitos dos festivais e comerciais.  Mas os autores guiados pela urgência serena de resistir ao fluxo torrencial das imagens-clichê também produzem uma forma de resistência imensamente potente, e nunca estarão fora do nosso radar como programadores do Cine BH.

A programação do festival este ano será aberta para essa urgência, que se faz necessária mais uma vez, em levar a câmera para as ruas e registrar/participar dos acontecimentos, e a urgência em nadar contra a corrente dos fluxos narrativos dominantes. Mas as turbulências pelas quais passa o Brasil despertam uma imensa necessidade de saber o que pensam e o que estão fazendo os realizadores brasileiros. Não por acaso, uma das seções mais importantes da programação desse ano será uma conversa com diretores que estão em pleno processo de produção de filmes sobre os acontecimentos do último ano, do impeachment de Dilma Rousseff, em maio de 2016, à crise do governo Temer, que se instaura exatamente um ano depois, em maio de 2017. Filmes que, cada um a seu modo, prometem produzir uma contranarrativa à avalanche midiática da mídia em torno dessa profunda crise política.

Numa de suas frases-choque, Jean-Luc Godard vaticinou: “A televisão produz o esquecimento a 30 quadros por segundo”. Estamos acostumados à efemeridade da TV, especialmente em tempos de crises econômicas, políticas e sociais renovadas a cada semana. Telejornalismo, videorreportagens, grandes coberturas midiáticas, tudo isso faz parte do nosso cardápio audiovisual, constantemente atualizado para a tragédia ou conflito ou escândalo seguintes. Mal levamos um choque, logo outro vem, numa onda interminável cuja grande consequência é o esmagamento da memória.

O cinema, por outro lado, tem como um de seus princípios a necessidade do tempo. Não só o tempo de sua feitura (é uma arte demorada, por ser a mais técnica e a mais financeiramente dispendiosa das artes), mas também o tempo entre o registro da câmera e a articulação de uma imagem com outras imagens, o tempo de duração entre apertar o ON e o OFF da câmera, o tempo de vivência do espectador em contato com aquelas imagens durante a projeção. Apesar da pressa e da correria do século 21, apesar do modelo 24 (horas)/7 (dias da semana) – definido por Jonathan Crary como “um tempo de indiferença, contra a qual a fragilidade da vida humana é cada vez mais inadequada” –, o cinema segue na contramão desse fluxo implacável de supressão de tempo.

A mídia é a máquina de produzir esquecimento, o happening, como também falava Godard, que implica o movimento constante de sempre ter alguma coisa acontecendo (“Não há silêncio na TV”, disse certa vez Eduardo Coutinho). O cinema, por sua vez, produz memórias (várias). Ele precisa ter interesses para além do imediatismo e da aflição da urgência. Mesmo se decide noticiar, quer-se resistência à calamidade do noticiário.

No cinema, a urgência é de outra ordem. Por mais emergencial que seja o teor ou conteúdo de um filme, ele demanda, novamente, tempo. Será esse tempo um grande responsável pela reflexão – estética e ideológica – daquilo que se lançará aos olhos e ouvidos dos espectadores. Uma câmera que capta a derrocada de um governo inteiro registra imagens que, juntadas a várias outras do mesmo acontecimento ou de momentos históricos distintos, podem servir a procedimentos muito mais elaborados e articulados do que o telejornal noturno.

A imagem de uma guerra ou da destruição provocada por um terremoto podem ser vistas brevemente na passagem do noticiário noturno ou como deflagradoras de uma montagem de efeitos estéticos e afetivos imprevisíveis. A documentação visual de um processo político ou do genocídio de uma raça sempre será urgentíssima, e o cinema tem plena capacidade de lidar com essa urgência utilizando de suas melhores armas. Se trabalhada para dar sentido às complexidades de cada processo, tem o impacto eternizado pelo filtro do cinema, pela memória do e no presente que se sedimenta para o futuro.

Que o sistema capitalista tendea não corroborar com esse tipo de movimento que se aprofunda na História em vez de resumi-la diariamente, preferindo investir na superficialidade dos programas de TV, não há novidades. De novo voltamos a Godard, quando ele diz: “Pois há uma regra e uma exceção. Cultura é a regra. E arte a exceção. Todos falam a regra: cigarro, computador, camisetas, TV, turismo, guerra. Ninguém fala a exceção. Ela não é dita, é escrita: Flaubert, Dostoiévski. É composta: Gershwin, Mozart. É pintada: Cézanne, Vermeer. É filmada: Antonioni, Vigo. Ou é vivida, e se torna a arte de viver: Srebenica, Mostar, Sarajevo. A regra quer a morte da exceção”.

Francis Vogner dos Reis
Marcelo Miranda
Pedro Butcher
Curadores