Cidade em Movimento

Com o objetivo de retratar um centro urbano, a imagem de algum espaço público ocupado por uma multidão sempre foi adequado1. Esse sem-número de pessoas – ou veículos – transitando indiscriminadamente sobre o traçado urbano nos trazem associações com o mundo moderno. As cidades se mostram assim, agitadas e efervescentes numa relação quase sem causa entre pessoas, objetos e arquitetura. Configuram, na contemporaneidade, um lugar de interação entre múltiplas lutas, onde o que se disputa é, essencialmente, o urbano.

"Heterogênea, dispersa, complexa e multidirecional, a multidão vem gerando debate intenso nos campos da sociologia e ciência política, sendo tema também de uma diversidade de obras artísticas nos últimos anos. Protestos em praças públicas, movimentos ‘ocuppy’ em grandes centros e as manifestações populares que, desde junho de 2013 proliferaram pelo Brasil, estão se tornando foco de abordagem de trabalhos que incorporam essas questões em seus processos de criação2."

Otermomultitude3 renova o entendimento dos movimentos sociais na atualidade. A multidão é, antes de ser uma abundância de pessoas, uma rede de singularidades. Ela se funda no princípio da alteridade, se constitui a partir do reconhecimento das diferenças. Um só corpo pode ser uma multidão, na medida em que agrega várias singularidades. A multidão nega qualquer princípio identitário. A multidão gera pensamento, ação e, a partir do reconhecimento das singularidades, produz o comum.

Ocomum, sob a ótica da multidão, está sedimentado na "comunicação entre singularidades, e se manifesta através dos processos sociais colaborativos da produção"4. Uma multitude é uma multiplicidade de indivíduos que agem em conjunto para cumprir um objetivo comum. Nos últimos tempos, essa multitude criou inúmeros movimentos populares. A Primavera Árabe, na Tunísia e Egito, ocupações e lutas na Grécia, na Espanha, com o Movimento Indignados ou 15M, em Nova York, com o movimento Occupy Wall Street.

 Por aqui, esses ecos têm reverberações nas ocupações urbanas – como Dandara e Izidora, nos compartilhamentos culturais anônimos, emergentes, disseminados por toda a cidade; também ecoam em performances artísticas LGBTIQ, pelo movimento Tarifa Zero, na ocupação do Viaduto Santa Tereza pelo movimento hip hop, nas ações e propostas da Assembleia Popular Horizontal, na resistência da população em situação de rua e dos pichadores na região do Baixo Centro, na festa artístico-política da Praia da Estação, no Carnaval e n’A Cidade que Queremos, entre tantos outros.

Não é mais o movimento indisciplinado de pessoas percorrendo o espaço, mas um movimento com foco, objetivo, planejamento, estratégia. Trazendo para o seu vocabulário todas as tecnologias possíveis de seu tempo, essa multitude movimenta a cidade e questiona valores e status, esfacelando hierarquias.

Quem movimenta a cidade? Quais as relações estabelecidas entre as políticas urbanas, culturais e sociais propostas e os processos de resistência nas metrópole? Como entender o papel dos atores nesses movimentos, como nos correspondemos e comunicamos com essa multitude anônima, plural, múltipla?

Em tempos de aceleração, as relações de poder configuram um conjunto de práticas essenciais à manutenção do Estado, moldando assim comportamentos, atitudes e discursos. O sequestro e o confinamento do indivíduo em instituições, como definiu Foucault, se manifesta de maneira elaborada e complexa nas mídias sociais, aplicativos, na anunciada extinção da www, no controle do ciberespaço, território onde um dia julgamos ver o futuro democrático implementado, quando surgiram os computadores pessoais e a internet. E isso apenas reflete, mesmo que ainda mais acelerado, o que vemos acontecer no espaço das cidades que habitamos.

As smartcities, como definidas por Droege, em 1997, pela Fundação Mundial para Cidades Inteligentes, ou pelo Fórum de Cidades Inteligentes (2006), conferem "democracia digital" às pessoas? O futuro não é mais o que era?5 Como entendemos essas perspectivas nas cidades? O que desejamos para o nosso futuro e como podemos atuar nessa construção dentro das estruturas de poder que enfrentamos?

Nesse cenário,o audiovisual tem papel bem mais importante do que mera ferramenta de apoio a essas ações. Esse acervo audiovisual criado, muito além de ser um registro, ferramenta de denúncia, compõe um manifesto contemporâneo que movimenta as cidades e altera as suas relações de poder. Absorvido pelos movimentos como parte de sua linguagem, se integra e se adapta fielmente a cada discurso representado. Nesse momento, o critério para a mostra, que orientou as indicações das conversas propostas, foi entender o motor desse movimento, o impulso de cada um deles.

CINEMA DE MOVIMENTO

MOSTRA DE FILMES

Registrar, compartilhar. Um duo moderno que se firma como modo de operação vigente em nosso cotidiano. Essa ação é também comum aos movimentos.

O audiovisual gerado nesses tempos constitui um acervo fundamental para o entendimento do movimento das cidades. Outro aspecto importantíssimo é criação de uma rede real de relacionamentos, mais solidária e mais efetiva.

Nesse primeiro momento, o senso coletivo e o registro desses movimentos são o foco dessa mostra. Queremos dar visualidade a esses discursos e a compartilhamentos de processos produtivos e criativos numa tentativa de criar diálogos e ampliar as suas conexões. Os filmes escolhidos foram produzidos na emergência de cada movimento da cidade em que estavam inseridos e são, além de documentos, manifestos. Em sua grande maioria, são crus, quase em estado bruto. Compõem uma primeira visão sobre momentos desses movimentos, realizados por quem vê de dentro, participa e é cúmplice de suas ações. A história contada por seus atores em formato audiovisual, criada quase ao mesmo tempo em que acontece.

A mostra Cinema de Movimento reúne filmes que buscam tornar visíveis as práticas políticas e lutas contemporâneas que movimentam a cidade de Belo Horizonte. Dividem-se em sessões relacionadas aos temas das Rodas de Conversa, dialogando com elas e fornecendo contextualização para quem quiser participar dos dois momentos desse movimento.

RODAS DE CONVERSA

As Rodas de Conversa propõem uma reflexão sobre os recentes movimentos, suas causas, consequências, práticas e aprendizados, com foco no que acontece na cidade de Belo Horizonte. A intenção é apontar, planejar e propor caminhos para o futuro, do ponto de vista das pessoas que, ao se mover pela cidade, a fazem se movimentar.

Que utopias matamos? O que acontecerá com nosso senso de humanidade? Até quando as reações restritivas das diversas instâncias de poder nos afetarão? O que podemos fazer? Como garantir um futuro que seja, se não muito melhor, pelo menos muito mais justo?

Dentro da lógica da multitude, as conversas serão abertas, horizontais e contarão com convidados que participam de movimentos diversos, agindo como provocadores, num primeiro momento. Mais do que rumos ou temas, o que propomos é um impulso para a conversa, a troca de ideias, para a criação de um processo comum. Sem ditar um caminho, sugerimos uma abrangência.

Dividimos as abordagens em três temas, que se cruzam:Densidade(desenho epreenchimento da Cidade); Intensidade e Diversidade(quem movimenta a cidade) e Sincronicidade(o futuro das cidades).

Colaboradores

Chico de Paula

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Chico de Paula
Foto: Marco Aurélio Prates


Gustavo Caetano Matos

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Gustavo Caetano Matos
Foto: Divulgação

Grazi Medrado

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Grazi Macedo
Foto: Marco Aurélio Prates

 


Paula Kimo

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Paula Kimo
Foto: Divulgação

 

1A Saída dosFuncionários da Fábrica LumièreeA Chegada do Trem na Estação(1895) nos mostravam grupos depessoas que compartilhavam ações, espaço e – possivelmente – alguma outra intenção. O trem e a fábrica não são meras escolhas aleatórias, mas estabelecem conexão com o progresso e a grande cidade.

Koyaanisqatsi(1982) nos mostrava uma multidão isolada em seu agrupamento, evidenciando os "males" doprogresso e da civilização sobre a natureza do mundo.

2 Extraído do texto de apresentação doMultitude: quando a arte se soma à multidão:http://www.forumpermanente.org/noticias/2014/multitude-quando-a-arte-se-soma-a-multidao.

3Entendido desta maneiraa partir da publicação de O império (2000), de Antônio Negri e Michael Hardt.

4Hardt e Negri, 2005, p.266.

5 Título da palestra deGuilherme Wisnick, a ser transmitida pelo YouTube em 7 de novembro deste ano, no CicloMutações 2016.