Neste sábado, começa a programação da mostra A Cidade em Movimento, na CineBH

Entre as várias atrações deste sábado, dia 22, no segundo dia completo de programação da 10ª CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte, está a primeira sessão da A Cinema em Movimento, às 18h, no MIS Cine Santa Tereza. Será exibido o longa-metragem Dandara – Enquanto morar for um privilégio, ocupar é um direito, de Carlos Pronzato, sobre um dos mais importantes movimentos sociais da história recente de Belo Horizonte.

Mais cedo, às 14h, acontece o segundo Diálogo Histórico com a presença do crítico italiano Adriano Aprà. Ele participa de bate-papo logo após a sessão de Cristântemos Tardios (Kenji Mizoguchi, 1939), no Cine Humberto Mauro. Na mesma sala, na sequência, tem Silvestre (João César Monteiro, 1981), na retrospectiva deste ano, às 17h30; o documentário Field Niggas, de Khalik Allah, em pré-estreia nacional às 19h45; e A Última Terra, outra pré-estreia, com direção do paraguaio Pablo Lamar, às 21h.

Mais pré-estreias nacionais neste sábado são A Cidade do Futuro, de Marília Hughes e Cláudio Marques, no MIS Cine Santa Tereza às 20h30; e Certas Mulheres, de Kelly Reichardt, às 20h30, no Cine 104.

Cinemas em português

O primeiro dia de realização do Seminário Brasil CineMundi, dentro da programação da 10ª CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte, contou com o grande debate conceitual do evento em 20016. A mesa “O estranho caso do cinema português” reuniu os curadores, Francis Vogner e Pedro Butcher, com as diretoras Joana Pimenta e Luísa Sequeira e o produtor João Matos (todos portugueses) e o crítico brasileiro Sérgio Alpendre.

A conversa girou em torno da questão que permeia a mostra este ano: a resistência artística diante de um mundo audiovisual regido fortemente por exigências de mercado e lucro. O cinema feito em Portugal é exemplar de uma certa contracorrente nesse sentido. “No Brasil, temos ciclos de cinema que são interrompidos, por questões de mercado. Nós não estamos trabalhando com uma tradição”, disse Francis Vogner. “Já no cinema português, encontramos linhas mais continuadas. É um cinema que persiste”. Sérgio Alpendre defendeu a necessidade de uma aproximação entre os dois países no audiovisual. “São formas de fazer, mas existem coisas que podemos aprender. A lição fundamental pro cinema brasileiro é fazer muito com pouco dinheiro. Temos filmes de R$ 2 milhões que são tidos como independentes, enquanto em Portugal os realizadores têm que fazer com um quarto disso”.

As participantes portuguesas da mesa compartilharam experiências e impressões sobre esse “enigma”. “Há um tempo extremamente dilatado para se fazer filmes em Portugal. Disso vem uma série de liberdade para as coisas. A ausência de um mercado, e sem um público específico para os filmes, nos deixa muito livres”, comentou Joana Pimenta. “A minha razão para combater o cinema comercial é a luta por subsídios públicos que permita a existência de nomes como Pedro Costa e Salomé Lamas”.

Luísa Sequeira frisou ser necessário educar jovens espectadores, ainda na infância e juventude, para que se interessem pelo cinema português. Um fator de dificuldade, hoje, é o fechamento de salas de rua e a proeminência de multiplexes em shopping (fenômeno em comum com o Brasil). A Cinemateca Portuguesa, considerada uma das melhores do mundo, foi citada como referência de um espaço de formação e resistência no cenário português.

O espectador da CineBH pode seguir se familiarizando com as produções de Portugal nas várias sessões da mostra dedicadas ao país. Neste sábado, às 19, uma sessão especial de curtas-metragens exibe Um Campo de Aviação, de Joana Pimenta, e Os Cravos e a Rocha, de Luísa Sequeira, seguidos do média Longe, de José Oliveira.

 Experiências compartilhadas

Duas mesas de formação também aconteceram na segunda-feira. O encontro “O cinema documentário no mercado internacional” contou com a presença das produtoras Lucie Treblay, do Canadá, e Martha Orozco, do México. As duas relataram experiências de circulação de filmes documentais no exterior e como definem os tipos de projetos que assume para produzir ou coproduzir.

“Na América Latina, nem sempre o governo investe nos produtores. Às vezes, quando temos uma ideia e queremos apresentar, o governo diz que precisamos ter um diretor para depois termos os recursos a serem aplicados”, ressalvou Orozco. Seu processo, portanto, é o de escrever ideias e enviar a grupos de roteiristas. Encontrando o ponto que a interessa, ela sai em busca de um diretor que se identifique com a proposta e propõe trabalho de codireção.

Para Treblay, compreender os talentos e vocações envolvidos é essencial para o bom andamento da produção. “Eu respeito a escolha do diretor quando ele tem boas ideias e escolho as pessoas de acordo com o talento que tem. Fazer pesquisas, por exemplo, é uma arte. Uns são melhores em filmar, outros em entrevistar, outros em ouvir o entrevistado...”, enumerou a canadense.

Já na discussão sobre “Experiências em coprodução internacional na América Latina”, produtoras e produtores relataram situações vivenciadas em anos de trabalho na área. A brasileira Vania Catani, da Bananeira Filmes, conta que, na relação internacional, “os investidores costumam se interessar muito mais por uma pessoa jovem”. Ela completa: “Todo mundo quer a novidade, descobrir os novos talentos é um fetiche, e isso é uma coisa considerada ao se investir, sobretudo a Europa. Há 20 anos, quando fui pela primeira vez para o mercado de coprodução, eu não me reconhecia como integrante do grupo de latinos. Hoje nós, brasileiros, já circulamos mais”.

A produtora colombiana Cristina Gallego falou sobre a realização de O Abraço da Serpente, dirigido por Ciro Guerra e lançado em 2015 nos festivais internacionais. “É um filme pouco convencional, uma história fora da casinha. Então foi difícil conseguir financiamento. Enviamos para os fundos europeus, mandamos para todos, e fomos recusados. Pensei que poderia ser coproduzido pelo Brasil, por trazer a floresta amazônica, mas fomos recusados também em todos os fundos. Conseguimos, enfim, coproduzir com a Argentina, e o filme teve uma boa circulação”.

Programação continua intensa

Neste sábado, três espaços culturais da capital mineira recebem programação da Mostra CineBH. No Palácio das Artes, o seminário Encontro com Arne Kohlweyer abre os trabalhos às 11h com o convidado alemão coordenador do programa Script Station, da Belin Talents, tendo como mediador Paulo de Carvalho, produtor da Autentika Films. O segundo encontro será às 12h, com Olga Lamontana, chefe de comunicação do Totino Film Lab, que contará sua experiência desenvolvido no laboratório internacional na Itália, que dá apoio aos novos talentos da produção audiovisual. Ao longo do dia, o Brasil Cine Mundi realiza também rodadas de meetings one-to-one com convidados internacionais e projetos selecionados desta edição.

Na parte da tarde, a segunda masterclass do crítico italiano Adriano Aprà, exibe o filme Crissântemos Tardionos, às 14h na seção Diálogos Históricos, no cine Humberto Mauro. Mais tarde o filme Silvestre será exibido às 16h, na Mostra Retrsopectiva João César Monteiro. A Experiência em coprodução internacional no Canadá, na França, e Na Suíça, será tema de um debate às 16h30, com a presença dos convidados Nicolas Comeu, Samuel Chauvin,  Yanick Létourneau, Alexa Riveiro e Aline Schmid, com a mediação de Séverine Roinssard.

A noite o Cine Humberto Mauro recebe dois filmes na Mostra Contemporânea com as pré-estreias nacionais dos longas Field Niggas, de Khalik Allah, às 19h45; e A última Terra, de Pablo Lamar, às 21h.

O Mis Cine Santa Tereza, espaço retomado nesta décima edição, recebe a sessão jovem da Mostrinha, às 16h, com o filme Tudo que aprendemos juntos. O espaço sedia a primeira exibição da Mostra a Cidade em Movimento, com o filme Dandara: Enquanto Morar for um privilégio, ocupar é um direito, às 18h, seguido dos Curtas e média da Série Portugal, às 19h15; e às 20h30, com a pré estréia nacional do longa A cidade do Futuro, de Cláudio Marques e Marília Hughes, na Mostra Contemporânea.

Por fim, o Cine 104, recebe também duas exibições neste sábado, uma delas às 19h na Mostra Curtas - Série 3, e às 20h30 a pré-estréia do filme Certas Mulheres, de Kelly Reichardt na Mostra Contemporânea.