Último dia da 10ª CineBH discute os movimentos sociais na era da internet e fecha com filme português

Roda de Conversa no Cine 104 coloca em pauta o ciberespaço em tempos de lutas políticas; à noite, no Cine Humberto, tem a pré-estreia nacional de “Correspondências”, de Rita Azevedo Gomes

O último dia da 10ª CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte traz o encontro derradeiro das Rodas de Conversa, às 16h, no Cine 104. Sob o tema “Sincronicidade (o futuro das cidades)”, o grupo integrado por Álvaro Andrade Garcia (escritor e diretor), Márcia Maria da Cruz (jornalista) e Louise Graz (especialista em urbanismo) debate ideias e reflexões sobre o ciberespaço e o futuro. Como reagir aos mecanismos de controle impostos pelos regime de governo contemporâneos? Como os movimentos sociais e culturais agem no cada vez mais intenso munto da internet?

Mais à noite, em diálogo com a Roda de Conversa, tem a sessão final da mostra Cidade em Movimento, com a pré-estreia nacional do longa Memórias de Izidora, realizado pelo coletivo Vilma da Silveira, João Victor Silveira de Paula, Kadu de Freitas, Edinho Vieira e Douglas Resende. O filme tenta ser uma espécie de memória coletiva das ocupações de Izidora, localizada na região metropolitana de Belo Horizonte. 

A quinta-feira da CineBH também tem as reprises de Viejo Calavera, do boliviano Kiro Russo (no Cine 104, às 18h), e de A Canção do Pôr do Sol, de Terence Davies (no MIS Cine Santa Tereza, às 19h30). Na retrospectiva dedicada ao português João César Monteiro, o filme do dia é À Flor do Mar (1986), no Cine Humberto Mauro, às 17h.

A mostra se encerra às 20h, no Cine Humberto Mauro, com a aguardada pré-estreia nacional de Correspondências, da portuguesa Rita Azevedo Gomes. O filme, que se inspira numa troca de cartas entre os poetas Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena, competiu este ano no Festival de Locarno, na Suíça.

 BATE-PAPO

Na Roda de Conversa realizada na quarta-feira, no Cine 104, a cientista política Áurea Carolina – vereadora eleita mais votada nas eleições municipais deste ano em Belo Horizonte – conversou com os participantes sobre os rumos do país com a ascensão de um novo governo, de viés conservador e com propostas consideradas de retrocesso. “Agora, mais do que nunca, precisamos estar próximas com muita generosidade para enfrentar o desmonte das políticas públicas sociais e recuperar por nós mesmas a democracia”, exaltou. “A intensidade e o movimento são a tônica da política emergente e de uma outra cidade possível”.

Áurea, vinda do hip hop, falou sobre a importância do movimento. “O hip hop é a minha matriz política e é a chance de nos conectar à família de rua, do reconhecimento de que nós somos iguais apesar das diferenças e que na rua podemos ter essa irmandade. Lado a lado podemos construir coisas”. Ela disse acreditar que a democracia na juventude é caminho fundamental para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa e equilibrada.

Em relação às lutas em torno do feminismo e das questões negras – todas muito caras à agora vereadora –, ela afirmou: “As mulheres, a população negra, as juventudes, trazem o que há de mais novo nesta fronteira diante do desmoronamento de um sistema político que tenta cada vez mais ser menos representativo. O fato de minha votação ter sido expressiva é um sinal de que há um campo possível e potente que conseguimos ativar a mediação entre as lutas e o nosso sistema democrático”.

Outro participante da Roda de Conversa, Dú Pente, do coletivo Pretas em Movimento, destacou o quanto a cidade é excludente em sua atual configuração política e urbana em especial para os negros. “É curioso, intenso e denso quando começamos a perceber a cidade onde vivemos quando você se dispõe a circular por ela, ou ser impedido de acessá-la. BH é uma cidade que foi feita por nós, mas que não é para nós. Nossas lutas se dão por uma questão de sobrevivência, tanto do corpo físico quanto da nossa condição como cidadão. Principalmente do lugar de onde eu venho, de um preto periférico”.

O filósofo e analista de políticas públicas Marcos Cardoso, militante do movimento negro, completou: “Por mais que BH seja bacana, é uma cidade hipócrita, pela segregação. Pelo menos 1/3 da cidade não dialoga. As favelas, as vilas, elas não conseguem acessar a cidade. Quando pensamos na cidade que queremos, pensamos também na integração dessas pessoas, que são diversas, que têm cores, etnias, credos distintos”.