A Cidade em Movimento

MOSTRA A CIDADE EM MOVIMENTO

Criada a partir de 2016, como uma seção na programação da Mostra CineBH, a mostra A Cidade em Movimento consistiu numa ação coletiva em diálogo com as questões, pulsações e movimentos atuais da cidade Belo Horizonte e sua Região Metropolitana, e que são expressos em manifestações artísticas e políticas. A intenção foi criar uma janela para dar visibilidade aos discursos produtivos e criativos, ampliando as suas conexões. E também um espaço para ocupar, refletir e propor caminhos para o futuro, do ponto de vista de quem se expressa através dessas manifestações.

Em 2016 procuramos exibir conteúdos audiovisuais que tivessem atuado, a seu tempo, como um manifesto contemporâneo que movimenta as cidades e provoca as suas relações de poder. O critério então definido para a mostra em 2016 foi entender o motor desse movimento, o impulso de cada um deles. Essa mostra teve o nome de Cinema de Movimento.

Em 2017 ampliamos esse olhar para manifestações que investigam os corpos, espaços e a organização dos sujeitos impulsionadores desse movimento. Queremos entender o espaço urbano como local para onde convergem esses discursos, onde as ideias podem provocar reações e sugerir atitudes consonantes com alguma proposta de futuro e de comportamento. Mais do que um olhar para os movimentos sociais emergentes em nosso tempo, queremos perguntar quem movimenta a cidade?

Nesse sentido, a escolha dos trabalhos deveria indicar alguma coerência de ação e comportamento com os movimentos emergentes na cidade e as discussões que eles provocam. A escolha de abordagens múltiplas nos conduziu a um agrupamento por temas tratados de forma diversa (‘O corpo, a mulher, a cidade’, ‘A cidade em disputa’, ‘O que acontece aqui?’, ‘Comunidade’ e ‘Religiosidade’). Esteticamente, essa diversidade também fica aparente, mostrando referências audiovisuais que vão do compartilhamento digital instantâneo (caso de A Tarada do Metrô) ao documentário ficcional (José Baleia), passando pelo ensaio autoral (Ostentação), apenas para mencionar alguns. Dentro dessa diversidade, podemos observar trabalhos premiados e já consagrados, de realizadores conhecidos, convivendo com trabalhos coletivos, produzidos pelos grupos que se querem retratados, e mesmo com trabalhos de iniciantes. Em todos os casos, fica patente a procura de uma linguagem que molde esse discurso, que o ambiente nesse universo audiovisual.

Portanto, nada mais natural que surgisse o desejo de compartilhar um processo de criação, de uma obra em movimento, sobre um movimento fundamental no redesenho político e cultural da cidade. Em 10 anos de ocupação do viaduto Santa Teresa, o Duelo de MCs–num âmbito mais amplo, a Família de Rua –ainda causa e comove a cidade. Será um prazer compartilhar a experiência deles através do longa em progresso O Som que Vem das Ruas III. Imperdível.

O que entendemos é que existe, nas cidades, uma produção cada vez mais rica, consistente, que busca caminhos próprios de produção e divulgação, propondo alternativas de existência e de futuro.

O que esperamos é que a Mostra seja uma provocação, capaz de movimentar ao menos pensamentos e indagações, tanto para as cidades, onde esses trabalhos nascem e se consolidam, como para o meio audiovisual.

Grazi Medrado e Chico de Paula
Coordenadores da Mostra A Cidade em Movimento

 

QUEM MOVIMENTA A CIDADE?

Movimentar pessoas, lugares e comunidades. Investigar o campo do audiovisual como espaço de convergência de discursos que vêm das ruas, das lutas, dxs artistas e dos movimentos sociais emergentes. Provocar deslocamentos dentro do nosso próprio território: o cinema. Talvez sejam esses os desejos que norteiam a curadoria e a programação dos filmes da Mostra Quem Movimenta a Cidade?, dentro da seção A Cidade em Movimento –uma janela criada em 2016 pela Mostra CineBHpara os discursos criativos e produtivos que tocam em temas, formas e modos de friccionar, emergire movimentar a nossa cidade. Para mostrar “quem movimenta a cidade”, foi preciso, por vezes, descolonizar o olhar, para habitá-lo com formas de vida que sustentam as câmeras ou performam diante das lentes, constituindo uma diversidade de pulsos e vibrações de uma cidade segmentada e desigual, mas que resiste ao produzir encontros e afetos.

Em sua primeira edição a Mostra convidou um conjunto de filmes que questionam os lugares de poder na Belo Horizonte contemporânea – tendo como foco as problemáticas ligadas ao direito à moradia, e também dando visibilidade aos movimentos culturais que ocupam o espaço público urbano. Já em 2017,foi aberta uma chamada para a produção local que se identifica com a temática Quem Movimenta a Cidade?. Se na primeira edição a Mostra foi composta por filmes convidados, agora a janela foi aberta para que as próprias produções pudessem ocupá-la. De um total de 33 filmes inscritos, 16 ocupam a programação juntamente com outros oitofilmes convidados.

Composta por seteexibições, a Mostra tem início com a sessão O Corpo, a Mulher, a Cidade,que coloca em questão o machismo estrutural que permeia o cotidiano, convidando o público a discutir essa pauta sempre urgente. Começando pelo curta-metragemZé Baleia, quetraz um belo retrato da cidade com fotografia de Fernanda de Sena e materializa o machista branco, heterossexual, da classe média belo-horizontina. Em A Tarada do Metrô, filmando uma selfie, a mulher seduz um homem no metrô da capital mineira, contrariando as cenas de assédio sofrido pelas mulheres no diaadia do transporte coletivo urbano. Ópio, videodança do Coletivo Ubuntu, traz corpos em movimento com a cidade. Em Preterir, uma questão invisível, a solidão da mulher negra, é posta em evidência a partir de relatos em primeira pessoa. Não por acaso, a sessão termina com o videopoema Nós Mulheres Re(e)xistimos, que, a partir do encontro das poetas Luiza Romão e Débora Del Guerra, convida poetas feministas da cena periférica a ocupar a tela.

A sessão A Cidade em Disputa focaliza questões ligadas à mobilidade urbana, à circulação das pessoas, à especulação imobiliária, à ocupação dos espaços públicos e ao direito à participação política na cidade. O curta De Magrelaescuta o artista visual Comum que vive a cidade sob duas rodas. Póliscoloca em cena os fluxos, ritmos e movimentos rotineiros de uma cidade que nunca descansa. Ostentação traduz a luta dos moradores do bairro São Benedito contra os impactos sofridos com a construção da Cidade Administrativa, na via MG-10. Mudança de Hábito contrapõe distintos modos de vida urbana, remetendo às manifestações políticas que tomam as ruas das cidades brasileiras em meio à crise política que vivemos. Por fim, em A Cidade que Habita em Mim, a ocupação cultural Espaço Comum Luiz Estrela (que dá vida aum casarão histórico abandonado)e o Movimento Tarifa Zero (que reivindica o transporte público, gratuito e de qualidade)estão juntos no filme e na luta.

O que Acontece Aqui? – chamado comum para o público do tradicional Duelo de MCs que acontece há 10 anos embaixo do Viaduto Santa Tereza –dá nome à terceira sessão da Mostra. Para além de homenagear esse importante evento da cultura periférica, a sessão lança olhares para outras manifestações culturais que ocorremna região, assim como para as pessoas que tomam as ruas do Centro como espaço de morada e trabalho. A rua como modo de vida. Começando por Taba, que, no fluxo da cidade e das pessoas em movimento, abre uma janela histórica, dando a ver grafites e pichações que, apesar de hoje apagadas pelas tintas do patrimônio cultural, reluzem na memória de quem vive e viveu o Viaduto Santa Tereza. Na sequência, Duelo de MCs Nacional 2016 e Rap Contagem: Mão Única colocam em cena o hip hop mineiro e sua relação com a produção de rap nacional. Aparecido habita a memória do baixo Centro e Peléé lavador de carros e dançarino. Os dois personagens reivindicam espaço para as vidas invisíveis que pulsam nas ruas de Belo Horizonte e estão cada vez mais ameaçadas pelas políticas de higienização. Segunda Preta: 1ª Temporadafecha a sessãocom um movimento de artistas negrxs independentes que ocupam o Teatro Espanca! com experimentos cênicos e reflexões sobre o fazer artístico e as questões que os afetam e atravessam.

Três sessões com longas-metragens compõem a Mostra. Da Lona ao Pai Tomás: A História do Cabana, contada por seus primeiros moradores, convida a comunidade do Cabana a se ver no cinema contando suas histórias. Em Preto Velho na Lagoinha, uma importante festa do calendário da Umbanda é filmada de dentro do terreiro, colocando em cena os rituais e osincretismo deuma religião de matriz africana que luta contra a intolerância. O Som que Vem das Ruas III – Filme em Processo – conta a história dos DJs de Belo Horizonte em uma sessão que homenageia os 10 anos do Duelo de MCs.

As crianças também participam da Mostra Quem Movimenta a Cidade?numa sessão de curtas-metragens produzidos por Anderson Lima e pelas Oficinas Pintando o Set, realizadas pelo Cine Cipó nas ocupações urbanas Eliana Silva, Esperança, Rosa Leão e Vitória. O curta Dourado, ficção que passeia pelo lúdico no Mercado Central, também compõe a Mostrinha.

O conjunto de filmes selecionados e convidados em 2017 trata apenas de uma parcela dessa cidade em movimento. A expectativa é que esse espaço criado em 2016 se consolide e se fortaleça ano a ano, chegando nos realizadores e produtores da periferia e do centro dessa grande metrópole, inclusive estimulando a produção e fortalecendo a identidade do cinema local. Se por um lado a Mostradá a verfilmes que se manifestam claramente contra as problemáticas urbanas, expondo claros desejos de intervenção social por meio da imagem,por outro, ela dá visibilidade à cena político-cultural que movimenta Belo Horizonte e Região Metropolitana por meio da arte, da festa, da ocupação do espaço urbano. Nesse sentido, espera-se que esse espaço criado pela Mostra CineBH seja um campo fértil não apenas para a difusão e fruição de imagens, mas especialmente para a conexão das pessoas e movimentos que buscam fazer da cidade e do cinema espaços vivos, plurais e pulsantes.

PAULA KIMO
Curadora da Mostra A Cidade em Movimento