Homenagem e Retrospectiva Pierre Léon

PIERRE LÉON – o radical discreto

A Mostra CineBH foi um dos primeiros festivais no Brasil a se interessar pela obra de um realizador singular: Pierre Léon. Em 2014, a mostra exibiu Por Exemplo, Electra (2012), filme que causou forte impressão e que nos levou a conhecer outros trabalhos de uma obra que já conta quase três décadas. Dois, Rémi,Doisfoi exibido no ano seguinte, antes de entrar em cartaz no Brasil.

Como um diretor tão discreto, misterioso e razoavelmente desconhecido chegou até nós? Inicialmente, por meio de sua atividade crítica. Grande admirador de Carl Dreyer, Pierre Léon pertence ao plantel da revista Trafic, fundada por Serge Daney e Jean-Claude Biette, este último, crítico e cineasta (brilhante) já falecido – sobre quem, inclusive, Léon fez o documentário Biette (2011) e escreveu o livro Jean-Claude Biette, le sense du paradoxe. Léon é um polemista elegante, desprovido de arbitrariedade. Acerta os seus alvos com precisão. Em entrevista à revista Lumière, fez uma revisão da história da cinefilia e interrogava a crítica contemporânea (em especial os Cahiers du Cinéma) sobre seus critérios e o possível esgotamento de um repertório.

Pierre Léon
Foto: Stéphane Dussère

Sua fala, seus textos e seus filmes revelam uma personalidade marcante. Ele faz parte de uma tradição de cineastas (se assim podemos dizer), especificamente franceses, frutos da cultura cinéfila, que conjugaram crítica e realização – de Alexandre Astruc, passando pelos “jovens turcos” (Truffaut, Godard, Rohmer, Chabrol e Rivette), pelo radical solitário Luc Moullet, por Jean-Claude Guiguet, Jean-Claude Biette, Paul Vecchialli e Louis Skorecki. É também ator, e o vimos em filmes como A França (2007), de Serge Bozon, O Complexo de Toulon (1996), de Biette, e Os Cinéfilos(1989), de Louis Skorecki, e também em alguns de seus próprios filmes.

Cineasta de produções modestas e ideias vigorosas, Leon carrega traços e elementos insinuantes em sua economia cênica radical, sua perspectiva romanesca e na consciência moderna de inflexão digressiva. A literatura é uma de suas fontes, a russa em especial está presente nas aproximações de Dostoiévski: O Adolescente(2001), Outubro (2006), O Idiota(2009) e Dois, Rémi, Dois(2015), que é adaptação de O Duplo.

São muitos os elementos comuns em sua obra, mas é difícil definir um “estilo Léon”, pois seus filmes revelam caminhos muitos variados, determinados pelas circunstâncias de produção: com dinheiro ou sem dinheiro, em vídeo ou em película, de duração curta ou longa, de produção mais artesanal ou com imperativos mais industriais. Por isso, cada filme é um filme. Ainda que haja variações formais e tom, existe uma poética comum a todos os seus trabalhos. É evidente sua matriz literária e o seu temperamento teatral, a importância da montagem e a importância de alguns colaboradores recorrentes (Serge Bozon, Bernard Eisenchitz, Jeanne Balibar, seu irmão Vladimir Léon, Laurent Lacotte, o montador Martial Salomon).

Uma retrospectiva dos filmes de Pierre Léon, portanto, é a oportunidade de vermos reunidos os trabalhos de uma obra quase secreta, de caráter artesanal, de filmes que são pequenos ensaios (Phantom Power, Lì por Lì), com a economia e a gravidade de pequenos laboratórios de pesquisa dramática (Outubro;Por Exemplo, Electra;Duas Damas Sérias), filmes com mise en scène de espaços concentrados e precisamente decupados (O Idiota;Guillaume e os Feitiços), sempre tendo no horizonte o romanesco e, em alguns casos, o fabular (Dois, Rémi, Dois).

A presença discreta de Pierre Léon no cinema francês revela um realizador obstinado e de personalidade forte, que tem construído uma obra sólida, sem concessões, de caráter experimental, mas nunca hermética. Sua veia inventiva e artesanal convive de maneira inusitada com um elã lúdico, de irresistível graça e beleza, tão bem expresso pelas canções que os personagens cantam (ou escutam) em alguns de seus filmes.

Além de retrospectiva inédita no Brasil e uma master classcom o cineasta, haverátambém na CineBH sessões comentadas por ele. Por isso, lhe demos carta branca para que escolhesse três filmes a serem exibidos na programação. Foram escolhidos: O Pecado de Clunny Brown, de Ernst Lubitsh (1946), A Bigger Splash, de Jack Hazan (1974), e Le Camion, de Marguerite Duras (1977).

Pierre Léon tem seus esforços reconhecidos nos últimos anos em retrospectivas e homenagens fora da França. O que leva países como Portugal, Argentina e Brasil a se identificarem com esse realizador? Poderíamos dizer que seria a condição, já que Léon, como boa parte do cinema brasileiro, argentino e português, está às margens de certo circuito do mercado de cinema contemporâneo, mas certamente não é só isso. A beleza de seus filmes? Talvez. De qualquer maneira, ver seu trabalho reunido em uma retrospectiva pode nos dar pistas para entendermos essa admiração sincera e entusiasmada que temos da obra e de seu realizador.

Francis Vogner dos Reis
Marcelo Miranda
Pedro Butcher
Curadores