Mostra Retrospectiva

ENTRE O TRÁGICO E O PATÉTICO: A ESTÉTICA DO INCONCILIÁVEL DE JOÃO CÉSAR MONTEIRO

 

Inventores e mestres são duas das três definições que Ezra Pound forjou para classificar os criadores literários (os diluidores seriam a terceira): inventores seriam os que descobrem um novo processo ou cuja obra nos daria o primeiro exemplo conhecido de um processo; mestres seriam os que realizam várias combinações do processo inicial e se saem tão bem – ou melhor – do que os inventores.  No cinema essas formulações têm cabimento e, quando pensamos em cinema moderno, Manoel de Oliveira é provavelmente um dos mais proeminentes artistas. Um mestre, assim como seus conterrâneos portugueses António Reis e também João César Monteiro. Porém, se Manoel de Oliveira e António Reis possuem obra e temperamento de mestres, João César Monteiro parece outsider demais para afigurar como um “mestre do cinema português”. Ele é um inconciliável do cinema como Luís Buñuel, Jerry Lewis, Charles Chaplin, Nicholas Ray e Jean-Luc Godard. Todos mestres, sem dúvida, mas que estão, com o perdão da palavra, se lixando para isso. Como esses mestres outsiders, sua obra rejeita discípulos muito reverentes ou disciplinados.

as_bodas_de_deus_div
Foto: Divulgação

 O fato é que filmes como Recordações da Casa Amarela (1989), A Comédia de Deus (1995) e Vai e Vem (2003), entre outros, são uma referência importante em se tratando mais de uma postura artística e certamente estética do moderno cinema português, apesar da particularidade radical do cinema de Monteiro. Primeiro, um certo equilíbrio formal que se constitui em planos bastante construídos, ainda que o arejamento da mise-en-scène possa transmitir uma impressão de espontaneidade ou simplicidade. Em segundo lugar, uma recusa a uma imagem que seja mais “comunicação” do que estética, ou seja: a imagem mercadoria, a imagem de sentidos vulgarmente codificados, que tem seu melhor exemplo na imagem da televisão.  Manoel de Oliveira já declarou filmar contra a TV, assim como João César Monteiro, indagado sobre a opacidade radical de Branca de Neve (2000), pergunta ao repórter: “Queriam telenovela?”.

 Sua obra se faz na relação incomensurável entre o trágico e o patético. Monteiro é um cômico pessimista, como Buster Keaton, no sentido de que possui uma perspectiva filosófica e abstrata da comicidade, já que concebe a discrepância e a incongruência entre o ser individual e o social, relativizando as várias articulações do mundo, incluindo aí o seu elemento trágico. A doçura de João César Monteiro não concorre com os maus bofes, mas dele faz parte sem oposição e nem separação.

 A retrospectiva de João César Monteiro na CineBH exibe alguns de seus mais importantes filmes – Silvestre (1981), À Flor do Mar (1986), Recordações da Casa Amarela (1989), Le Bassin de JW (1997), A Comédia de Deus (1995), As Bodas de Deus (1999), Branca de Neve (2000) e Vai e Vem (2003) – e ajuda a compor a discussão que buscamos empreender este ano, pois o cinema de João César Monteiro faz apostas radicais com uma intrincada simplicidade de estrutura e propósitos. Cinema de mestre outsider, inconciliável e indomesticável. Vai e Vem é a síntese de imagem que buscamos apreender: o (auto) retrato de João César Monteiro – aqui como João Vuvu – é um sujeito solitário e próximo da morte. Na agonia ainda o erotismo e a ironia, ambos como gestos para resistir à morte. Ao filmar a morte, o diretor resiste a ela. O que fica para a eternidade é a imagem da resistência: sua, de seu corpo e de seu cinema.

 Francis Vogner dos Reis
Curador Mostra CineBH