Mostra Retrospectiva Gestos de Cinema

Produtora paranaense Gesto de Cinema ganha retrospectiva de sua produção

A 11ª Mostra CineBH presta homenagem à produtora paranaense Gesto de Cinema. Composta pelos produtores-realizadores Caio Baúe Isabele Orengo, a sessão apresenta cinco curtas da produtora que aposta no formato como local de investigação cinematográfica e engajamentos pessoais dos seus integrantes.

Homenagear uma produtora de curtas, dando a ver sua produção em conjunto, significa dar visibilidade a esse tipo de empresa cinematográfica que passa ao largo da lógica do mercado de longas-metragens. Interessa-nos pensar as linhas estéticas que movem um conjunto de filmes unidos sob a bandeira dos mesmos produtores. Pode-se antever uma continuidade formal e temática em obras de grandes produtores brasileiros e mundiais, o que no formato curta se revela um trabalho um tanto mais árduo. Para suplantar essa dificuldade, dedicamos essa sessão aos filmes da Gesto de Cinema, visando pensar que o trabalho autoral do curta-metragem passa também pela postura ativa dos produtores.

A Gesto de Cinema se destaca por um diálogo constante com questões ligadas ao público jovem, algumas delas assumidas frontalmente. Os cineastas e produtores de curtas-metragens têm um lugar de fala privilegiado para levar a cabo projetos dessa natureza, pois já têm o domínio da técnica e da linguagem cinematográficas e ainda guardam frescas no corpo e na memória as experiências vividas durante essa fase da vida. Além disso, os filmes da Gesto de Cinema se engajam diretamente em questões que atingem minorias sociais e de gênero, propondo um encontro interessante entre cinema de diversão e de cinema de engajamento.

A sessão se inicia entrando abertamente nessas questões. Pai aos 15, de Danilo Custódio, é uma reflexão justa sobre as responsabilidades da vida adulta que chegam cedo demais e como lidar com elas. Na relação de afinidade entre um garoto e seu irmão mais jovem, o cineasta revela destreza para filmar tanto o lado leve da juventude (skate, encontros, namoro) quanto seu lado mais adulto (a afirmação de um lugar de responsabilidade que se impõe ao personagem principal).

Pavão sem Cores, de IsabeleOrengo, é o único da sessão que escapa a essa dimensão de falar diretamente ao público infanto-juvenil. O filme, de viés experimental, cria uma ficção em cima de obras da história pessoal da diretora e as memórias que guardava do seu avô desaparecido. Outro ponto recorrente nos filmes da Gesto de Cinema é esse envolvimento pessoal dos diretores com os assuntos abordados, prova da porosidade entre expressão artística e vida pessoal.

Aproveitando uma efemeridade e mantendo a afinidade em retratar o início da idade adulta, Paixão Nacional, de JandirSantin, mostra o encontro de dois mundos: o de uma alemã vinda ao Brasil para a Copa do Mundo e um jovem da periferia de Curitiba. Falando da segregação entre pobres e ricos, a ficção é econômica em palavras e dilata seu clímax para representar o mal-estar em termos sido um país que gastou milhões para realizar um evento mundial, mas que não consegue integrar as diferentes camadas da sociedade.

Dirigido por Igor Urban,O Mundo Estratifica, o Corpo se Desloca, poético e sugestivo título para um documentário sobre dragqueens, entre o político e o festivo, o filme acumula trechos de shows e depoimentos dessas figuras que vivem entre o sonho e a marginalidade. O filme aborda o tema sem vitimismo, mas deixando clara a importância sociopolítica dessas construções corporais.

A sessão se encerra com o filme mais recente da Gesto de Cinema, a docuficçãoLuiza, de Caio Baú. O diretor filma a irmã deficiente em situações cotidianas envolvendo a família. Mais do que um documentário de observação, Luiza é um filme que se engaja pelo afeto; que ousa abordar a sexualidade adolescente e, principalmente, de um jovem casal, sem necessariamente parecer ultraprotetor ou, ao contrário, exibicionista. O tom justo de Luiza resume as posturas dos diretores da Gesto de Cinema: falar do pessoal e conseguir, através de uma forma ao mesmo tempo democrática e refinada, dialogar com um gruposétnico-sociaisou minorias sexuais.

Pedro Maciel Guimarães
Curador de curtas